Comportamento de risco
é mais influenciado por álcool, drogas e
pressão dos colegas. Reclamações de pais e
médicos teriam mais a ver com o choque de
gerações.
O hip-hop,
com suas letras, vídeos e passos de dança
insinuantes, há muito tempo é criticado por pais e
especialistas em saúde pública, que temem que o
estilo musical contribua para o comportamento sexual de risco entre
adolescentes.
No entanto,
nunca ficou claro se existe algo de realmente furtivo exclusivo do
hip-hop, ou se o problema está apenas no fato de a maioria
das pessoas com mais de 40 anos simplesmente não o
compreender. Afinal de contas, quase toda geração
parece ficar incomodada com as preferências musicais da
geração seguinte. Quem não se lembra quando os
movimentos pélvicos de Elvis chegaram a ser considerados
como uma influência nociva e maliciosa à juventude do
país? Para solucionar esse mistério, pesquisadores de
saúde pública estão desconstruindo a cultura
do hip-hop, aventurando-se pelas pistas de dança das boates
e dissecando as letras dos raps. A idéia é que,
compreendendo o hip-hop, os especialistas poderão produzir
mensagens mais eficazes sobre saúde, e talvez até
oferecer aos pais uma clareza maior sobre a tão
enigmática música escolhida pelos filhos.
"Sem
dúvida existe um consenso popular de que o hip-hop é
uma música danosa e que induz as pessoas a cometerem
maluquices", disse Miguel A. Munoz-Laboy, professor assistente do
departamento de ciências sócio-médicas da
Universidade Columbia, nos Estados Unidos. "Precisamos tentar
entender como a juventude compreende a sua própria cultura
sem impormos nossos julgamentos de adultos."
Munoz-Laboy
passou três anos estudando o cenário das boates de
hip-hop, conversando com os adolescentes e observando o modo como
eles dançavam. Embora a música hip-hop tenha sido
bastante acusada de misoginia, os pesquisadores descobriram que
são as garotas que determinam os limites na pista de
dança, segundo uma pesquisa publicada neste mês no
periódico "Culture, Health and Sexuality".
Até
mesmo durante uma dança cujo estilo possui apelo altamente
sexual, conhecido como "grinding", no qual uma pessoa basicamente
esfrega o corpo na outra, as meninas citadas pelo estudo "estavam
conscientemente atentas a manter o controle do corpo e do
espaço a sua volta", ressaltou o estudo.
A maioria
dos adolescentes analisados no estudo já tinha
experiência sexual. Mas os pesquisadores descobriram que a
sexualidade manifesta na música e na dança não
é a principal influência sobre o comportamento sexual.
Na verdade, é o velho tripé álcool, drogas e
pressão dos colegas que, em geral, conduz o jovem à
experiência sexual.
A
lição que fica para o pessoal de saúde
pública é que o hip-hop não é apenas
uma música, mas sim um sistema de apoio e uma estrutura
social que domina a cultura jovem, declarou Munoz-Laboy. A
linguagem do hip-hop pode também, na realidade, ser uma
maneira mais eficaz de se comunicar com os adolescentes. Uma
campanha de prevenção contra o HIV de
sensibilização entre as mulheres, por exemplo, seguiu
o exemplo das letras sexualizadas do hip-hop.
Ainda
persistem dúvidas sobre se as letras explícitas do
hip-hop incentivam ou não o sexo precoce. No ano passado, o
periódico Pediatrics publicou uma pesquisa da RAND Corp. que
concluiu que o problema são as letras depreciativas, e
não as de cunho sexual.
Os
pesquisadores entrevistaram mais de 1.400 adolescentes durantes
dois anos, perguntando a eles sobre a música que escutavam,
associando esse dado a fatores como pressão dos colegas e
supervisão dos pais. Eles descobriram que os adolescentes
que estavam expostos a letras com conteúdo altamente
depreciativo em termos sexuais tinham duas vezes mais
propensão de ter praticado sexo.
Os
pesquisadores definiram o termo "letras depreciativas" como as que
retratam as mulheres como objetos sexuais, os homens como
insaciáveis e o sexo como algo inconseqüente. Um dos
exemplos citados por eles é do rapper Ja Rule, cuja
música "Livin' It Up" inclui a letra "Half the ho's hate me,
half them love me" ("metade das vadias me odeia, metade me ama").
Ficou claro que as letras que mencionavam sexo, como as
interpretadas pela banda 98 Degrees, "I'm dreamin' day and night of
making love" ("sonho dia e noite em fazer amor"), não
exercem nenhum efeito no comportamento sexual, como revela o
estudo.
É
possível que os adolescentes mais interessados em iniciar a
atividade sexual simplesmente tenham mais inclinação
a escutar músicas com letras mais picantes. No entanto, a
pesquisa sugere que os pais se preocupem menos com o fato de os
filhos estarem ou não escutando hip-hop, e fiquem mais
atentos ao conteúdo. "Precisamos ensinar a molecada que o
retrato que se faz das mulheres e do sexo não representa a
realidade", declarou Steven C. Martino, cientista comportamental da
RAND.
Neste ano,
outro artigo do "Culture, Health and Sexuality" intitulado
"Representando no Ciberespaço" analisou o modo como as
meninas negras americanas usam termos comuns no hip-hop como
"freaks"1 e "pimpettes"2 para se referirem a
si mesmas em seus sites pessoais. A pesquisa incentivou a autora,
Carla E. Stokes, a formar o HotGirls (sigla que em inglês
significa Ajudando Nossas Adolescentes em Situações
da Vida Real), um grupo sem fins lucrativos sediado em Atlanta que
promove workshops em que as meninas conversam sobre música,
reescrevem letras que consideram de mau gosto e até gravam
discos com músicas de autoria própria. "Estamos
tentando criar algo construtivo a partir dos aspectos emancipadores
da cultura hip-hop", explicou Stokes.
De fato,
muitos especialistas acreditam que a chave para a
comunicação com toda uma geração de
jovens pode ser encontrada no hip-hop. "Isso é muito mais
poderoso do que qualquer influência negativa que a
música possa estar causando", disse Bakari Kitwana, um
artista, de passagem pela Universidade de Chicago, cujo livro "The
Hip-Hop Generation" ("A geração hip-hop") é
considerado como a principal obra acadêmica sobre o
tema.
"O hip-hop
é um fenômeno de uma geração que
conseguiu unir os jovens", acrescentou Kitwana. "Se isso não
for compreendido, muita coisa será perdida."
1- Na gíria, garotas que praticam muito
sexo e que, apesar de transparecerem ingenuidade, topam qualquer
tipo de prática sexual.
2- Na gíria, garotas com boa aparência que
usam os meninos para conseguir o querem e saem com vários
parceiros sem se comprometer afetivamente com nenhum.
Fonte: G1
Postado por
Tiago Ribeiro às 10:30
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